História do Cafundó
A palavra quilombo nem sempre se refere a escravo fugido. Quilombo nem sempre é isolado da cidade, muito menos ocupado só por negros. Na Comunidade Remanescente de Quilombo (CRQ) Cafundó, tudo começou quando os escravos Ricarda e Joaquim Congo foram alforriados e instalaram-se em um terreno que se acredita ter sido doado pelo antigo patrão, Joaquim Manuel de Oliveira, na década de 1880. As filhas do casal, Antônia e Ifigênia, que, respectivamente, se casaram com Joaquim Pires Cardoso e Caetano de Almeida, originaram as duas principais famílias da comunidade. Em 1940, com sua valorização econômica, as terras passaram a ser alvo da cobiça de fazendeiros. Vinte anos depois, os que se diziam seus donos já cercavam o local. Passaram-se mais doze anos até que, um membro da comunidade, Otávio Caetano, filho de Ifigênia, registrasse o primeiro processo jurídico da disputa pelas terras, de nº. 384/72, alegando usucapião (lei que garante a posse da terra para quem more e produza nela por cinco anos in
nterruptos), processo que foi julgado justificado, contestado, arquivado e desarquivado. Mas, até hoje – 36 anos depois –, nada foi resolvido. Enquanto isso, o Cafundó começava a ganhar fama nas reportagens dos jornais e entre os pesquisadores, principalmente pela língua falada até hoje por alguns membros da comunidade, a cupópia. Se alguns se interessavam pela cultura da comunidade, outros olhavam para as terras. Os casos de violência também viraram notícia.
As casas de pau-a-pique, à luz de vela, e a água buscada no rio só deixaram de existir muitos anos depois. Em 1985, veio a energia elétrica, e, naquele mesmo ano, a última gleba da comunidade foi cercada. Água encanada, só em 1994. Casa de alvenaria, para muitos, apenas em 1999.
A fama de ser “um bem cultural de valor histórico e documental-social” veio com o tombamento da comunidade pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado (Condephaat) em 1990, e o reconhecimento como comunidade quilombola, pelo Relatório Técnico-Científico do Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp) concluído nove anos depois.
Nas mãos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), a terra foi reconhecida em 2006, com uma área de 218,446 hectares. Até o fim de 2008, a comunidade continua aguardando a emissão do título das terras, vivendo em 105 pessoas em uma área de cerca de oito alqueires (aproximadamente 21 hectares), dependendo de iniciativas assistencialistas da Prefeitura de Salto de Pirapora, de instituições e de quem se interessa por um pouco de história viva brasileira.




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